quinta-feira, 14 de junho de 2018

Um disco indispensável: Gal Costa - Gal Costa (Philips/Companhia Brasileira de Discos, 1969)

Tal como grandes vozes femininas surgidas em terras brasileiras com o passar dos anos, a baiana Maria da Graça Costa Penna Burgos, nascida na Bahia, mais precisamente na abençoada cidade do Salvador em 26 de setembro de 1945, conseguiu atravessar diversas gerações fazendo de tudo um pouco: ela é bossa nova, samba, rock 'n' roll puro, MPB, tropicalismo e o que surgisse na frente dela, botando mesmo pra quebrar. A baiana, filha de dona Mariah Costa Penna e de Arnaldo Burgos - este, um pai mais ausente - teve mais a mãe como grande incentivadora, tanto é que dona Mariah passava horas concentrada ouvindo música clássica como um ritual, tendo a intenção de que esse procedimento causasse uma influência na gestação e fizesse com que a criança que estava a vir ao mundo, fosse uma pessoa com a música no corpo e na alma. A pequena Maria da Graça cresceu ouvindo de tudo, de Gonzagão a Caymmi passando pelos clássicos da Rádio Nacional, e quando saiu o álbum clássico de João Gilberto, o sempre lembrado Chega de Saudade, no início de 1959, ela sentiu que era aquilo que queria fazer. Cantar. O álbum gerou impacto em muitos jovens daquela época, no Rio, por exemplo, Marcos Kostendbader Valle e seu irmão Paulo Sérgio, o próprio Eduardo de Góes Lobo mais o capixaba residente no Rio de nome Roberto Carlos Braga e também os amigos Erasmo Esteves, Sebastião Rodrigues Maia e dessa galera fluminense também um certo Jorge Duílio Lima de Menenezes; em São Paulo foi assim também com Francisco Buarque de Hollanda (carioca residente na cidade àquela época), a própria Rita Lee Jones (devota confessa) foi hipnotizada pela canção; na abençoada Bahia foi com jovens também donos de ouvidos atentos à boa música, como Caetano Emanuel Vianna Telles Veloso e também um rapaz chamado Gilberto Passos Gil Moreira e por aí vai. Jovens ficaram cansado das canções dor-de-cotovelo e começaram a sentir o toque mágico da bossa de João, que mudou para sempre a história da música popular brasileira. Na juventude, o pai faleceu quando ela tinha 14 anos e começa também a trabalhar como balconista na principal loja de discos da capital baiana, a Roni Discos, onde ali descobriu um universo musical enorme, e tendo contato com as irmãs Sandra e Dedé Gadelha, esta última lhes apresentou a Caetano, um então estudante de filosofia e crítico de cinema em um jornal onde trabalhava ao lado de Glauber Rocha, futuro diretor de cinema: e depois disso, a amizade marcaria pra sempre e segue durando aí até hoje. Mais adiante, ela se  junta ao conjunto de artistas formados por ela mais Caetano e sua irmã Maria Bethânia, juntamente de um outro baiano vindo de Irará chamado Antônio José Santana Martins, futuramente Tom Zé, e fizeram parte de um espetáculo chamado Nós, Por Exemplo... apresentado em Salvador num local que ajudou a semear as carreiras destes baianos, o Teatro Vila Velha, situado no interior do Passeio Público: a estreia do espetáculo foi em 22 de agosto de 1964, meses depois de um golpe militar derrubar o gaúcho João Goulart, mantendo um regime/ditadura que durou por mais de 20 anos e causando diversas sensações no brasileiro, que iam de esperança ao pavor do que aconteceria mais adiante. Com este mesmo pessoal, participou também de Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova no mesmo local, e dali de Salvador partiu para o Rio de Janeiro tentar a sorte e seguir os passos de Maria Bethânia, que veio para substituir Nara Leão no aclamado espetáculo Opinião. Conseguiu um contrato com a RCA Victor, gravando um compacto com seu nome Maria da Graça e trazendo os temas Sim, Foi Você da autoria de Veloso, e também Eu Vim da Bahia, de Gil, além de ter participado da música Sol Negro, feita por Caê e no álbum da amiga e companheira de estrada e música.
No final de 1965, quando o cerco não estava começando a apertar no país, ela conheceu pessoalmente o guru da bossa nova, ele estava de férias ao lado de sua nova esposa, Miúcha, irmã de um compositor novo no cenário de nome Chico Buarque, que havia gravado um compacto até então. A sua atenção foi tanta que Guilherme Araújo quis começar a empresariar a carreira daquela gente baiana que estava chegando, e sugeriu mudar o nome - a jovem Maria da Graça de ontem é a Gal de hoje, amanhã e de sempre, e assim Gal Costa virou sua nova assinatura. Fez presença no I FIC (Festival Internacional da Canção) exibido pela TV Rio, onde cantou de Gil e Torquato Neto a música Minha Senhora, que não vingou. Em 1967, um jovem produtor carioca chamado João Araújo (futuro pai de um poeta exagerado) levou ela e Caetano para a gravadora Philips, onde gravaram seu primeiro disco, Domingo - assinado como Gal e Caetano Velloso (o sobrenome com dois Ls permaneceu só neste disco), ali gravaram temas como Avarandando e Coração Vagabundo, este um clássico, e aqui mostravam os dois como legados da bossa na suavidade vocal. No mesmo ano de 1967 ela participa do festival que revolucionou a história da MPB, o inesquecível III Festival de Música Popular Brasileira, exibido na TV Record, defendendo Bom Dia, de Gil e Nana Caymmi, e também Dadá Maria, da autoria de um santista chegando no cenário chamado Renato Teixeira, no festival cantou ao ladod e Sílvio César e no estúdio quem canta com ela é Teixeira. Mas a coisa aconteceu mesmo em 1968, primeiro ela participa do álbum coletivo que revolucionaria de vez no cenário musical tupiniquim, o clássico Tropicália ou Panis et Circensis, junto de Gil, Caetano, Nara Leão, Tom Zé e de um trio jovem que chegou abalando as estruturas eletrificando a MPB de vez, estes eram Os Mutantes, com Sérgio Dias na guitarra mais Arnaldo Baptista no baixo e Rita Lee nos vocais e instrumentos diversos (flauta, percussão), ali o disco mostrou Baby, uma canção doce com arranjos românticos, marca da carreira dela, onde Caetano canta Diana, o clássico tema de Paul Anka atrás do refrão entoado pela doce voz da baiana. E depois participou do IV Festival de Música Popular Brasileira, onde interpretou de Gil e Caetano o tema Divino, Maravilhoso - um rockão onde ela gritava e mostrava ser muito mais que a dona de uma voz delicada. Ao mesmo tempo, participava da zona de anarquia tropicalista em forma de programa televisivo com o mesmo nome Divino Maravilhoso, de duração efêmera na TV Tupi, e que encerrou antes dos gurus tropicalistas serem presos e levados à Bahia, onde ficaram até o exílio. Gravava um álbum, o primeiro solo, com a produção de Manoel Barenbein e tendo os arranjos do maestro tropicalista Rogério Duprat mais o jovem guitarrista Lanny Gordin e ainda do próprio Gilberto Gil antes de ser preso. Na capa, ela veste plumas e traz um olhar mágico que nos convida a uma viagem sonora tropicalista porraloca, basicamente sua voz mostra uma Grace Slick ou uma Janis Joplin dos trópicos baianos. O álbum já nos traz um órgão chapante que dá a deixa para Não-Identificado, composto ainda em 1968, fala de uma canção de amor que o eu-lírico fará para sua amada, misturado com discos voadores, é um tema belíssimo, que une romantismo e ficção científica de de forma surreal; depois, a baiana traz um forrozinho pro repertório, um terma de Rossil Cavalcanti que ficou conhecida por Jackson do Pandeiro - Sebastiana era um xaxado que ganhou uma pegada forrock no arranjo, bem a cara do que os nordestinos viriam fazer nos anos seguintes; em seguida a baiana começa a dar sua voz a Lost in the Paradise depois que um naipe de sopros desfila na introdução, e, acreditem, Gal manda muito no inglês quando canta; mais adiante, o álbum ganha toques mais delirantes quando Gil grita na introdução de Namorinho de Portão, composta por Tom Zé, e que o mesmo gravara no seu álbum Grande Liquidação naquele 68 também; para a faixa seguinte, suavidade nos arranjos e perfeição em Saudosismo, que é nada mais do que uma ode de Caetano à João e ao álbum Chega de Saudade, que na voz da baiana, fica uma coisa bonita de se ouvir; as duas faixas que aparecem na sequência são composições de peso da dupla Roberto & Erasmo: a primeira é Se Você Pensa, que traz um toque de soul-rock e a guitarra de Lanny mandando muito aqui, e depois ela traz Vou Recomeçar, um tema que imortalizou-se em sua voz e é lembrado até hoje do repertório dessa sua fase, nas duas canções ela mostra estar dando a volta por cima "Daqui pra frente, tudo vai ser diferente..." na primeira "Não vou ser mais triste, eu vou mudar daqui pra frente" nesta última, carregam o mesmo tom poético; mas a faixa de grande destaque mesmo é esta que vêm a seguir: Divino, Maravilhoso apresentada no IV Festival da Record, nos bastidores foi Caetano que convidou ela a interpretar o tema e o arranjo ficou com Gil, e quando se apresentou com roupas mais coloridas, um colar de espelhos e um cabelo black power, foi uma explosão - mostrou-se mais diferente do que no início, levou o 3º lugar e marca até hoje aqueles que ao ouvir "É preciso estar atento e forte/Não temos tempo de temer a morte" carrega como uma filosofia de vida, a vibe roqueira deste tema surpreende nossos ouvidos; quem também aparece em forma de composição é Jorge, o mestre do suingue em Que Pena (Ele Já Não Gosta Mais de Mim) com uma onda mais de sambalanço e Veloso dividindo os vocais com uma de suas tantas musas e parceiras de vida e música; na faixa seguinte, Baby, a versão presente é a do Tropicália ou Panis et Circensis com aquela voz de Caê ao fundo puxando a canção Diana e aquele tom de canção romântica nos arranjos feitos por Duprat, que seguiria trabalhando nos próximos materiais dela; das canções de Gil e de Torquato Neto no repertório temos A Coisa Mais Linda Que Existe, um tema mais parecido com o soul pela levada e ouvindo os metais nesse arranjo, talvez uma música mais ligado à pegada pop moderna da época; e o disco fecha com o tema Deus É o Amor, um tema mais alegre, falando que todo mundo parte um dia, o violão é tocado pelo próprio autor do tema, Jorge Ben, provando de onde vem tanto suingue deste tema. A sua viagem sonora continuaria em seu sucessor, o clássico Gal lançado meses depois e do qual já falei aqui no blog (leia aqui), mas aí já é uma outra história.
Figurando em listas possíveis de muita gente (músicos, críticos, fãs) dos melhores álbuns de rock brasileiro, MPB e psicodelia, não podemos negar o quão a baiana conseguiria ir longe demais nos seus trabalhos adiante, seu legado permanece fortemente influenciando diversas cantoras atuais e ela na ativa fazendo música, isso que é ótimo. O álbum figura na lista dos 100 Melhores Discos Brasileiros de Todos os Tempos, figurando o 80º lugar, mas nada que tire todos os méritos que realmente merce.
Set do disco:
1 - Não-Identificado (Caetano Veloso)
2 - Sebastiana (Rossil Cavalcanti) - participação de Gilberto Gil
3 - Lost in the Paradise (Caetano Veloso)
4 - Namorinho de Portão (Tom Zé) - participação de Gilberto Gil
5 - Saudosismo (Caetano Veloso)
6 - Se Você Pensa (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
7 -  Vou Recomeçar (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
8 - Divino, Maravilhoso (Caetano Veloso/Gilberto Gil)
9 - Que Pena (Ele Já Não Gosta Mais de Mim) (Jorge Ben)
10 - Baby (Caetano Veloso)
11 - A Coisa Mais Linda Que Existe (Gilberto Gil/Torquato Neto)
12 - Deus é o Amor (Jorge Ben)

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Um disco indispensável: A Night at the Opera - Queen (EMI Music/Elektra Records, 1975)

Nunca foi muito difícil ter a sensação de poder ouvir um disco e se surpreender com tantos elementos misturados em um só material, agora imagine a sensação quando se ouve um álbum de rock dos anos 70 em que misturam não somente rock progressivo, hard rock, heavy metal, pop com music hall, ópera, vaudeville e coisas mais aproximadas do clássico? Imaginou? Agora, imagine que este álbum com tantos elementos, feito por quatro pessoas tenha se tornado um clássico e que estes quatro caras sejam membros de uma das bandas mais importantes do rock, e esta banda é o Queen! Sim, meus caros leitores, minhas caras leitoras deste blog que vocês tanto amam! O quarteto mais fodástico do rock and roll criou em 1975 um álbum que marcaria pra sempre a história da música e que soasse ousado, autêntico e marcante, aonde juntavam ópera com rock. Mas, vamos voltar no tempo, bem antes de acontecer este disco, quando eles tinham feito até então dois álbuns, em 1973 estreou com o Queen - de sucesso relativo, tendo algumas músicas relevantes na época, e no ano seguinte veio o Queen II, que apresentava alguns temas mais destacáveis como Father to Son, Seven Seas of Rhye e também The March of the Black Queen, que merece um valor enorme pelo seu arranjo, e isso é o resultado do espírito coletivo que rolava na banda: Brian May na guitarra, John Deacon no baixo, Roger Taylor na bateria e o irreverente e brilhante Freddie Mercury na voz e no piano lideravam junto a banda e faziam coisas incríveis: desde os próprios coros até o uso de outros instrumentos, exceção de sintetizadores. O grande boom mesmo na história da banda foi através do terceiro álbum, intitulado Sheer Heart Attack, editado 9 meses depois de Queen II, em novembro. E com este disco eles seguiram provando ser insuperáveis na arte de criarem peças sonoras dentro de suas canções, vale ouvir temas como Stone Cold Crazy ou o caso de Now I'm Here, também Killer Queen e Dear Friends, e esse disco quase não acontece devido à baixa de May, que estava doente  quando iniciaram as gravações deste álbum, e a banda só esperou ele se recuperar para que ele pudesse botar seus overdubs de vocais e de guitarra, e na época em que ele estava enfermo, ele sonhou com uma enchente devastando a Inglaterra, e o sonho virou uma realidade: foi apenas uma pequena enchente ocorrida em Londres, dezenas de pessoas perderam suas vidas e o tal sonho fez com que May compusesse People of the Earth, que seria utilizada no sucessor de Sheer Heart Attack, só que com um outro nome. Só que, a partir de 1975, os rumos que a banda teria em sua carreira seriam outros: primeiro o rompimento com o empresário Norman Sheffielfd e eles decidiram assumir as rédeas de seus trabalhos, o que rendeu a eles um excesso de liberdade maior, e a partir de agosto, eles iniciariam o processo de criação de um dos seus melhores álbuns já feitos e que marcou para sempre a história do rock and roll, estamos falando de A Night at the Opera, o quarto álbum e uma das magnus opum da música em geral. A partir de agosto, a banda iniciaria as gravações daquele álbum, cada um em estúdios separados, e depois terminariam o projeto todo no estúdio Rockfield na cidade de Monmouthsire, no País de Gales - embora tenham produzido materiais nos estúdios SARM Studios, os lendários Trident, Roundhouse e Olympic Studios mais Scorpio e Lansdowne, estes já tudo em Londres, e tudo com a ajuda de Roy Thomas Baker na coprodução, aliás, Baker trabalhava com a banda desde o primeiro álbum, a engenharia de gravação ficou por conta de Mike Stone e de Gary Lyons, o primeiro um outro cara que trabalhou muito com o Queen também desde o primeiro LP dos quatro. A capa e o restante da arte gráfica ficou por conta de David Costa, que colocou na capa o símbolo da banda: um Q em um raio de sol onde trazem os signos de cada membro: dois leões (John e Roger) representando o signo de Leão, as fadinhas são o signo de Virgem (Freddie) e o caranguejo em cima do Q da banda representa o signo de Câncer (Brian) e no topo uma ave, mais precisamente uma fênix - esse símbolo já foi reproduzido em um outro álbum mais adiante. Houve-se uma grande expectativa sobre este trabalho, já que o Queen planejava fazer algo mais brilhante e usar mais recursos do que nos álbuns anteriores, experimentando até outros instrumentos, como o banjo, o koto - instrumento de corda japonês, a harpa e o ukulele, além de acrescentarem diversas camadas vocais em várias faixas do disco.
Em 1975, o Queen dominava o mundo com sua
união de rock com ópera proporcionada
em "Bohemian Rhapsody" uma das melhores músicas
já feitas na história do rock
No começo do álbum, já ouvimos acordes de piano como se fossem parte de um tema clássico de Mozart ou até de Bach, mas chega a guitarra de May gritando e dando a deixa para Death on Two Legs (Dedicated to....) uma afronta de Mercury, que acabou deixando marcas entre a banda e os empresários e donos dos estúdios Trident, aonde eles gravaram seus primeiros trabalhos - os irmãos Norman e Barry Sheffield mais Jack Nelson, muito se especulou mais sobre Norman ser o motivo de Freddie descontar tanta raiva num tema tão pesado, chegou até a processar eles, mas não havia nenhuma comprovação e ficou por isso mesmo; na sequência surge um tema bem simples, com cara de canção dos anos 20/30 com uma atmosfera toda doce até vir um finalzinho mais pesado - esta é Lazing on a Sunday Afternoon, contando a história de alguém que conta o dia-a-dia, envolvendo trabalho, lua de mel até dizer que descansa no domingo de tarde, e dá a deixa para a próxima música, um hard rock bem porraloca, cantado pelo próprio Roger Taylor, chamada I'm in Love With My Car, tratando a história de um amor sobre quatro rodas e na qual ele dedica no encarte a canção para um dos roadies, Jonathan Harris, e o considerou corredor de carros até o fim, e a faixa termina com um ruído de carro em alta velocidade para complementar; já em diante, temos uma baladinha soft, de autoria de Deacon, mas cantada por Mercury e que teve êxito até, You're my Best Friend: uma declaração de amor do próprio Deacon para Veronica Tezlaff, sua esposa, e aqui o baixista toca um piano elétrico Wurlitzer, o que deixou Mercury p... da vida, o próprio cantor descreveu o piano como um instrumento horrível em uma entrevista; ainda podemos ter nesta obra de arte que é o disco, um skiffle com toques de ficção científica escrito e cantado por May, intitulada '39, contando a história de um grupo de exploradores espaciais que decidem fazer uma viagem de longos anos, e descobrem que já se passou um milênio, destaco aqui o violão suingado e a percussão marcada que fazem toda a diferença; em seguida, mais um rockão aqui pesado complementando o repertório, também de May - Sweet Lady, carregando um riff bem marcante para os fãs da banda, e não passa despercebido para nós; fechando o lado A deste álbum nós temos aqui a faixa Seaside Rendezvous, um tema bem fim do século XIX, um honky tonk com toques de cabaret e uma das poucas faixas da banda em que May não participa tocando, e aqui conta com instrumentos de sopro, em especial a tuba e um kazoo - muito usado em desenhos e filmes de comédia dos princípios do século XX, e apesar de ser bem um tema que pareça bobo, é divertido de se ouvir até; abrindo já o lado B do álbum temos a canção nascida originalmente como People of the Earth, nascida após May ter sonhado que uma grande enchente devastava a Inglaterra, aqui virou The Prophet's Song e seus oito minutos de duração onde ganha atmosferas sonoras que vão da psicodelia ao metal e traz mais de dois minutos e vinte segundos com Freddie Mercury dando um show à capella, e que show, leitores e leitoras, a partir de 3:23 até 5:50 é algo incrível, e no final May e Taylor também participam e depois volta aquele peso sonoro da banda com um solo de guitarra incrível tocado por May, sem sombra de dúvidas; já em diante, temos um grande tema de destaque e que marcou os diversos shows que a banda fez, aqui com um toque romântico mezzo clássico mezzo contemporâneo nos arranjos, que é Love of My Life, que apesar de parecer triste, foi feita como uma declaração de amor à sua então namorada Mary Austin, agradecendo ela por tudo, e mesmo depois de terem rompido o namoro, eles seguiram amigos até Freddie nos deixar em 1991, e a música nos shows - diferente da versão estúdio onde havia desde piano até guitarra e harpa orquestral tocada por Brian - o guitarrista no palco arranhava um violão de 12 cordas e Freddie deixava a plateia cantando nas apresentações, e esse típico momento marcou uma das apresentações da banda realizada quase dez anos depois no primeiro festival Rock in Rio em janeiro de 1985, no lento processo de renascer da democracia brasileira, com uma multidão cantando em uníssono no Rio de Janeiro, mas não vamos desconsiderar a versão estúdio como uma das coisas mais bonitas que o grupo já fez; recriando em suas canções sempre uma atmosfera mais antiga, May decidiu trazer uma pegada jazzística para sua Good Company, um tema que também soa bobinha, mas não perde sua essência e também dá realmente pro gasto, lembra um pouco as músicas feitas antes de 1950 quando ouvimos; na sequência temos o que realmente é considerado o ponto extremamente alto do disco, aonde Mercury comprovou que se podia misturar rock com ópera, só para se ter uma noção - os 180 overdubs vocais feitos pela banda para que soasse como um grande coral operístico foram feitos em 70 horas, e Mercury conseguiu revolucionar mesmo com Bohemian Rhapsody, que tem uma parte balada, seguida de ópera, depois migra para o rock e, por fim, volta ao que era antes, uma balada, e ganhou um clipe promocional (até então uma forma pouco utilizada) para divulgarem em diversos veículos televisivos do mundo - simplesmente um tema ousado, brilhante e original mesmo; e para terminar, temos uma adaptação roqueira e instrumental ao tema que nada mais é do que o hino nacional da Inglaterra, a própria God Save the Queen, uma digna homenagem à Família Real britânica, e esta versão foi reproduzida pelo próprio Brian no Jubileu de Ouro da Rainha Elizabeth no ano de 2002, dá para ser também uma música digna de encerrar o álbum.
Passados os anos, fica aqui uma explicação sincera sobre este álbum e sobre a revolução que impactou, de como a banda podia fazer de tudo dentro dos estúdios com as próprias mãos, um exemplo fictício do tipo botarem até uma torcida do Chelsea ou do Arsenal para fazerem um coro ou gravarem no meio do mato (imaginem só), que acabaria fazendo a cabeça de muita gente e se tornando um ponto de impacto enorme na carreira do grupo comprovando que podiam ir além com as ideias que captavam para seus sons. Figurando em diversas listas importantes, como por exemplo, a dos 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, aonde destacam boa parte do processo de criação de Bohemian Rhapsody, além de estampar diversas listas de álbuns dos anos 70, ela aparece na lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, organizado pela Rolling Stone, na posição de número 231, enquanto a New Musical Express elegeu nos 100 Greatest Albums of All Time como o 19º melhor álbum, e que Deus siga salvando a nossa Queen suprema do rock and roll sempre.
Set do disco:
1 - Death on Two Legs (Dedicated to....) (Freddie Mercury)
2 - Lazing on a Sunday Afternoon (Freddie Mercury)
3 - I'm in Love With My Car (Roger Taylor)
4 - You're my Best Friend (John Deacon)
5 - '39 (Brian May)
6 - Sweet Lady (Brian May)
7 - Seaside Rendezvous (Freddie Mercury)
8 - The Prophet's Song (Brian May)
9 - Love of My Life(Freddie Mercury)
10 - Good Company (Brian May)
11 - Bohemian Rhapsody (Freddie Mercury)
12 - God Save the Queen (tema tradicional, adaptação e arranjo de Brian May)

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Um disco indispensável: What's Going On - Marvin Gaye (Tamla/Motown Records, 1971)

Com o fervilhar do movimento negro, das manifestações e da luta pelos direitos civis, a América fervilhava a revoluções políticas, sociais e culturais, mesmo que o fim do "sonho" ou melhor dizendo, dos anos coloridos e da era psicodélica, já estavam com os dias contados, definitivamente. Com o auge no lendário festival de Woodstock, onde centenas de milhares de pessoas curtiram o máximo da Santíssima Trindade aclamada: o sex, drugs & rock 'n' roll em uma fazenda na cidade de Bethel, a multidão conferiu Janis Joplin, Grateful Dead, Sly & The Family Stone, The Who, Joe Cocker, Santana, John Sebastian e fechando com tudo, um dos mais emblemáticos e marcantes shows daquele festival: o do guitarrista e astro do momento Jimi Hendrix, que amanheceu a multidão com suas alucinações sonoras na guitarra, agora com a Gypsy Sun and Rainbows - que depois se tornara a Band of Gypsys mais adiante. Hendrix apresentou no meio do seu repertório uma adaptação para o hino estadunidense - The Star Spangled Banner, uma forma de protesto contra a guerra do Vietnã, e isso se tornou um dos maiores jeitos de combater, através da música, como muitos fizeram. Naquele mesmo ano de 1969, meses depois, um festival organizado pelos Rolling Stones na Califórnia (EUA) traz os primeiros sinais do fim do sonho - contratando os motoqueiros dos Hell's Angels e ainda tendo algumas mortes, era para ser a primeira turnê da banda na América após a morte de Brian Jones em junho, mas o clima não era realmente de "paz e amor" desta vez. O final da década de 1960 foi marcado pela grande renovação do soul, com mensagens anti-guerra, mensagens positivas ao povo afroamericano e também com suas porraloquices além do psicodélico: foi preciso que Sly & The Family Stone lançassem o clássico Stand! (leia o texto aqui) e também o soulman e produtor Isaac Hayes lançasse sua magnus opum Hot Buttered Soul (leia também o texto) para que o movimento funk começasse a ganhar uma expansão maior e tivesse uma enorme influência no rock e até no jazz, e uma nova safra de artistas surgiam, os grupos como Funkadelic, The Meters, Ohio Players entre outros estavam propagando essa vibe mais colorida da música black feita nos EUA, e alguns artistas aclamados, como os da Motown decidiram pegar carona no embalo, como no caso do cantor e compositor Marvin Gaye, que com seus 10 anos de trajetória, havia acumulado sucessos tanto em solo quanto na dupla que formava com Tammi Terrell, uma jovem moça que era a aposta da Motown e dona de uma das mais belas vozes que haviam surgido no soul, e havia sido escolhida para substituir Kim Weston em 1967 dividindo os vocais com Mr. Gaye no clássico Ain't No Moutain High Enough, mas um tumor cerebral maligno interrompeu de vez sua breve trajetória: afastada dos palcos, mas com grande vontade de dar voz, ela passou por oito operações malsucedidas até falecer em 16 de março de 1970. Marvin, mal estava preparado para seguir na música, com a perda da parceira e mergulhado nas drogas, viu que ele não ficaria vendo o mundo passar, ele decidiu então se reinventar total. Mas, para isso, teve de começar a negociar seu próximo álbum com a Motown, diferente de tudo que já havia feito até então, e com seu bom humor e talento, achou a resposta para tudo, o difícil era convencer Berry Gordy (executivo da gravadora e sogro de Marvin) a investir nesse seu álbum que marcaria para sempre a história da música, para não dizer apenas do soul e do rhythm and blues (R&B), óbvio.
Deixando a vontade de se aposentar após a morte da parceira Terrell, ele prepara seu material e chega a Gordy com a ideia de gravar um disco bastante politizado, crítico e também com um quê de ecologia no ambiente poético-musical, só que não esperava com uma indignação daquele que tanto o deu espaço na gravadora e o lançou, e quase rejeitou a proposta de uma das faixas de What's Going On, gravada em junho de 1970, converter-se em single e Gaye avisou que se não lançassem, que ele não gravaria nada, e, sob pressão do artista, a gravadora atendeu o pedido e lançou em janeiro de 1971 a faixa What's Going On, o primeiro single deste álbum que marcou para sempre a era setentista do soul como todo. Ao ouvirmos o disco, que foi lançado mais precisamente no dia 21 de maio de 1971, no auge do estouro do funk e bem no gigantismo do rock progressivo, você sente que são os 35 minutos mais marcantes da sua vida, isso eu posso lhes garantir:  inspirado após a volta de Frankie Gaye (irmão de Marvin) depois de um período de três anos servindo a América na guerra do Vietnã, ele serviu como pano de fundo para poder se tornar nas faixas a narrativa de um soldado que volta da guerra para seu chão estadunidense, e ele encontra nada além de ódio, sofrimento e injustiça e mostra um pouco das crenças espirituais do artista, no caso da corrupção policial e da pobreza - temas até então pouco debatidos. Ao ouvirmos os primeiros segundos da faixa que abre o disco, sentimos um ambiente de festa nos diálogos, mas sucedidos por um balanço soulzeiro bem suave e boom! - nós temos What's Going On, uma música linda de se ouvir desde os arranjos até a poética, e ele deixa claro que a guerra não é a resposta para nada no mundo, e transborda uma mensagem belíssima nos versos; em seguida somos surpreendidos por What's Happening Brother, marcado pela percussão embalante e sem decepcionar a gente: a faixa mostra essa confusão mental e emocional que todos estavam inseridos, sem comida, emprego, dinheiro e família num mundo de incertezas e desesperos destacados a cada verso da música; o momento mais bonito deste álbum - senão um dos mais bonitos é em Flyin' High (In the Friendly Sky), com uma pegada bem afrolatina nos arranjos e cheia de elementos do jazz e mostra o porquê de Marvin ser um dos maiores cantores de todos os tempos, e pronto; na próxima canção do disco a seguir, nós temos também um apelo para as crianças, um pedido de ajuda em Save The Children que lembra um discurso do então jogador de futebol Pelé após seu milésimo gol (na época, jogando no Santos) pedindo para ajudarmos e não esquecer das crianças, mas diferente do que o maior camisa 10 da história disse, aqui é cheio de diálogos que não fazem feio e com um belíssimo destaque para as cordas que encantam nossos ouvidos; na sequência, sem perder o lado religioso, nós temos um pouco de gospel aqui em God is Love, e aqui ele fala que Deus e Jesus são nossos amigos e dá belas lições aos cristãos ou não-cristãos, como por exemplo, a de que Deus nos perdoará por todos nossos pecados - gospel sem perder a essência soul ambientada neste disco; e em diante nós temos uma música onde fala-se de um tema totalmente raro de se discutir naqueles anos 70 - a ecologia, muito antes de virar comum nas campanhas de preservação ao meio-ambiente, Marvin já trazia sua preocupação em Mercy Mercy Me (The Ecology) e já deixava recados bem dado, e se você está lendo isso, é bom botar a mão na consciência sobre as preocupações, retratadas na canção com aquele suingue empolgante de sempre fechando o lado A do disco; para não perdermos o caminho do baile oferecido por mister Gaye, ainda temos a mais longa faixa deste álbum, intitulada Right On nos impressiona logo com sua cozinha sonora e suas melodias ambientadas nos seus sete minutos e trinta segundos de duração, que nos fazem ir para a pista de dança e curtir numa boa esse soulzaço de primeira; e esse suingue continua com peso na faixa seguinte, recheada de otimismo e mensagens para que tenhamos uma atitude para melhorar o mundo e sociedade nos versos de Wholy Holy que parecem soar como um poema clássico nos versos, com toques críticos para os anos 70, é claro; o fechamento deste disco fica por conta de um tema que prova todo o talento de Gaye em todo e o significado da palavra SOUL, bem autobiográfica pelo jeito - Inner City Blues (Make Me Wanna Holler) terminam com tudo este belíssimo álbum que marcou a música para sempre e inovou até os rumos artísticos na Motown, inspirando até colegas de gravadora como Stevie Wonder - a expandirem suas mentes para sons que fariam em seus discos seguintes, como Music of My Mind e também em Talking Book, ambos lançados em 1972.
Pelo fato de ser considerado uma obra-prima, é necessário re-explicar que o ambiente poético dentro das 9 faixas do disco soam como impactantes quando a gente escuta, e dá uma prova de que Marvin Gaye conseguiu dar sua volta por cima e lançar uma magnus opum eternizante sem deixar de sair de moda até hoje. Nos anos 80, a revista inglesa especializada em música, a própria New Musical Express (NME) elegeu este disco como o Melhor Disco de Todos os Tempos, e foi preciso comprovar novamente 18 anos depois de ter figurado em diversas listas de álbuns dos anos 70 e também do século XX, seu devido valor, e a Rolling Stone deu a ele o 6º lugar na lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, e também fazendo presença na lista dos 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, é realmente a nossa bíblia do soul cheia de hinos ou também um hino em forma de disco, como vocês leitores queiram entendê-lo.
Set do disco:
1 - What's Going On (Al Cleveland/Renaldo Benson/Marvin Gaye)
2 - What's Happening Brother (James Nyx/Marvin Gaye)
3 - Flyin' High (In the Friendly Sky) (Elgie Stover/Anna Gordy Gaye/Marvin Gaye)
4 - Save The Children (Al Cleveland/Renaldo Benson/Marvin Gaye)
5 - God Is Love (Elgie Stover/Anna Gordy Gaye/James Nyx/Marvin Gaye)
6 - Mercy Mercy Me (The Ecology) (Marvin Gaye)
7 - Right On (Earl DeRouen/Marvin Gaye)
8 - Wholy Holy (Al Cleveland/Renaldo Benson/Marvin Gaye)
9 -  Inner City Blues (Make Me Wanna Holler) (James Nyx/Marvin Gaye)

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Um disco indispensável: Sounds of Silence - Simon & Garfunkel (Columbia Records, 1966)

Imagine que dois rapazes, com vozes bem doces que pareciam a de anjos estivessem entrando nas ondas do rádio saudando a escuridão, vendo ela como uma velha amiga, um violão bem soft, e ainda mais - se tornando um sucesso nos anos 60. Já imaginou? Pois é, agora imagine mais de um ano depois esta mesma música tocando no rádio e de repente - cabrum! - uma virada de bateria, uma guitarra que faz parecer uma baladinha roqueira. Foi isso que aconteceu com a música The Sound of Silence, um tema muito conhecido pela frase de abertura "Hello darkness my old friend" utilizada em vídeos quando a pessoa acaba se sentindo sozinha ou está naquela bad, momento triste, e se tornou um meme, havia sido um tema popular ainda no álbum Wednesday Morning 3 AM, até que o produtor Tom Wilson mexesse os pauzinhos na canção que tinha um primor só vozes-e-violão e acrescentou guitarra-baixo-bateria, sem que a dupla Paul Simon e Art Garfunkel, ou melhor - Simon & Garfunkel, notassem isso ou tivessem algum conhecimento, e acabou virando um sucesso maior, é a versão mais conhecida para os fãs, os antigos e os novos. Esta versão com corpo sonoro ganhou as rádios e entrou no disco sucessor do já citado anteriormente Wednesday Morning 3 AM, mas antes, vamos dar uma breve voltinha no tempo para explicar como o próximo álbum do qual estamos falando, nasceu. A dupla, existente desde o final dos anos 50, começou como Tom & Jerry e emplacou um rock na época, chamado Hey Schoolgirl e só vieram a se lançar como Simon  & Garfunkel mesmo em 1963, chamando a atenção de um executivo da Columbia Records, quando ambos já haviam se reencontrado, e gravaram seu álbum de estreia com o tema The Sound of Silence, que no início não havia vingado comercialmente. Simon foi tentar a sorte na Inglaterra no cenário folk em 1965, ano em que os Beatles - literalmente - dominam o mundo e lotam um Shea Stadium na cidade de New York (com um público estimado entre 50 a 100 mil pessoas), os Rolling Stones acabam também conquistando o mundo com o hit (I Can't Get No) Satisfaction e mostrando uma imagem de bad boy, uma versão contrária do bom-mocismo do quarteto de Liverpool e também com o folk elétrico de Bob Dylan que causou no Newport Folk ao colocar uma guitarra elétrica e ser chamado de traidor, tempos depois lança o hit Like a Rolling Stone que acaba se tornando uma das maiores canções emblemáticas da história, e que abre com tudo sua magnus opum - o álbum Highway 61 Revisted, até hoje o mais bem vendido de todos os seus álbuns. Retorna para o seu chão da América ainda nesse ano e descobre que aquela música feita há um ano atrás estourou com uma roupagem instrumental, e decide chamar Garfunkel para retomarem as atividades da dupla e gravando um álbum às pressas, na correria, enquanto a música rolava como nunca nas rádios.
Já abrindo o álbum, temos aqui The Sound of Silence (vulga música do "Hello darkness my old friend...") com aquele violão arrepiante e as vozes harmoniosas e quando o minirrefrão da música é pronunciado pela primeira vez, e no meio do segundo verso, a base acaba engrossando o caldo, e esta base foi acrescentada em junho de 1965 para ser lançada como single - e vingou muito! A próxima música que segue o repertório é Leaves That Are Green, composta por Simon e gravada anteriormente ainda na Inglaterra enquanto ele ainda fazia uma temporada por lá, gravou um álbum chamado The Paul Simon Songbook, e que conta aqui com um arranjo bem peculiar, um piano elétrico dando conta do recado logo na introdução e uma pegada bem raiz da música americana e não decepciona a gente aqui; da safra de composições de Simon temos também Blessed, que mostra um lado mais roqueirão na base, um blues-rock que não prejudica o repertório e faz bonito pra valer, com um toque até de lamento nos versos, onde se pergunta por que Vossa Onipotência (Deus) abandonou o eu-lírico dos versos da canção; a próxima faixa que aparece no repertório é Kathy's Song, outra faixa que também saiu do primeiro álbum solo de Simon, o violão dá um toque bem suave e sem tanto exagero, mas com muita simplicidade no arranjo; no meio disto, o álbum não deixa de desfilar peças sonoras maravilhosas, no caso de Somewhere They Can't Find Me, com cordas que trazem um ar mais primoroso dentro do arranjo da música; para complementar o repertório do álbum, contamos também também a faixa Anji - um tema instrumental de Davy Graham que acaba servindo como um algo mais, que Simon conheceu ainda na terra de origem do futebol e da rainha, e mostrando os dotes como violonista até; já em diante, podemos ter aqui mais outro tema de destaque que é Richard Cory, que traz uma guitarra bem country, e que Simon apenas musicou de um poema do estadunidense Edwin Arlington Robinson (1869-1935) e se transformando num belo tema - sem vacilar conosco, é claro; embora boa parte do repertório constitua-se dos temas gravados no primeiro trabalho solo de Simon, como no caso de A Most Peculiar Man, não é difícil encontrar nestas regravações um tropeço sequer quando se trata de pérolas como esta; outra que também veio originalmente do The Paul Simon Songbook é a belíssima e até um tanto que triste April Come She Will, que trata de um amor que chega e vai sem avisar, se destaca muito o violão bem tocado e harmonioso até, com menos de 2 minutos belíssimos de ouvir; na próxima faixa do álbum, temos um rockzinho bem nervoso até pela sonoridade, que é We've Got a Groovy Thing Goin', apesar da letra ter um clima meio pesado, se salva até pelos vocais e pela energia que a música carrega; e para terminar, temos aqui um dos grandes sucessos que este disco proporciona para a gente, e nós estamos falando de I Am a Rock (vindo do seu Songbook também), a história de um sujeito com quase nenhum sentimento e solitário, que evita o amor, e mesmo assim, que conquistou ouvidos ao redor do mundo.
Set do disco:
1 - The Sound of Silence (Paul Simon)
2 - Leaves That Are Green(Paul Simon)
3 - Blessed (Paul Simon)
4 - Kathy's Song (Paul Simon)
5 - Somewhere They Can't Find Me (Paul Simon)
6 - Anji (Davy Graham)
7 - Richard Cory (Paul Simon, musicado de um poema de Edwin Arlington Robinson)
8 - A Most Peculiar Man (Paul Simon)
9 - April Come She Will (Paul Simon)
10 - We've Got a Groovy Thing Goin' (Paul Simon)
11 - I Am a Rock (Paul Simon)

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Um disco indispensável: Johnny Cash at Folsom Prison - Johnny Cash (Columbia Records,1968)

Na década de 1960, o mundo começou a acelerar o ritmo das coisas: os fatos, os levantares dos movimentos em busca de igualdade e direitos sociais, o fervilhar das revoluções propagadas ao redor do mundo, os ideais de paz e amor, liberdade e tudo, era um mundo repleto de caos, som e fúria. Agora, volte para 1968 e se imagine dentro da situação que alguns países latinoamericanos viviam com seus regimes/ditaduras, a Espanha sob as mãos de Franco, Portugal ainda com Salazar no poder, a Guerra do Vietnã fazendo parte dos EUA se incomodarem com aquele momento. Gente jovem de cabelos longos, roupas coloridas, cheios de flores nas mãos pediam paz e amor nas ruas não só da América, mas do mundo todo, o auge do flower power ou hippie marcaram o final dos anos 60. A música foi uma forma de fazer revolução com seus discos longos, sons que pareciam nos levar a um universo diferente, proporcionados por gente como The Doors, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Cream, os próprios Rolling Stones e os Beatles estavam numa vibe bem porralocona, psicodélica. Mas, um artista que se revangloriou no momento em que só se falava de paz e amor, onde cores vibrantes dominavam as ruas e a moda, ditando as regras culturamente, foi Johnny Cash. Ícone do country nascido no Arkansas, filho de um humilde fazendeiro, John Robert Cash começou a vida cedo, trabalhando em campos de algodão aos cinco anos e tinha um laço muito forte com o irmão mais velho, Jack, que faleceu quando tinha 12 anos, uma semana depois de ter sido puxado por uma serra de madeira no moinho em que trabalhava. Depois disso, ficou traumatizado e ficou esperando que um dia fosse encontrá-lo no paraíso, e isso ele dizia muito em revistas, canções, e foi até nos deixar em 12 de setembro de 2003 aos 71 anos, que reencontrou seu velho amigo. Cash serviu na juventude a Força Aérea americana, ele já fazia suas composições e tocava violão, muito antes de servir na Alemanha e já iniciou um caso com Folsom, a cidade, que descobriu assistindo a um documentário sobre a prisão do município californiano. Ao ser dispensado, o futuro Homem de Preto voltou da Alemanha, se casa com sua primeira esposa, Vivian Liberto, futura mãe de seus quatro primeiros filhos. E se encontra com dois músicos iniciando sua jornada como artista, um começo meio tímido em Memphis (cidade do Tennessee), onde se mudou para tentar a sorte grande vendendo ferramentas e também estudando para ser locutor de rádio. Imagina só a honra dele de fazer parte do famoso Million Dollar Quartet, o quarteto de artistas que vendiam muito na Sun Records, o primeiro grande salto: ele, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e um tal de Elvis Presley aí que estava começando a chamar a atenção de muitas jovens em especial pela sua imagem de galã dono de uma voz semelhante a de um cantor negro. Passados os anos, o destino deu muitas voltas na vida dele para que tudo começasse a se tornar diferente na vida dele: a começar pelos sucessos, ao invés de seguir na casa de Sam Phillips, foi para a Columbia, mas a vida quase lhe custou um preço muito alto.
Sendo um artista aclamado até mundialmente, o countrystar acabou ganhando uma fama de outlaw (fora-da-lei) que o levou até o final da sua carreira, diversas passagens pela prisão, muitas das penas não-cumpridas - mesmo que tenha passado só uma noite atrás das grades - e dono de uma selvageria marcante, o casamento com Liberto teve um fim duro e ele começou a se reinventar depois que começou um romance com June Carter, que junto de outros amigos do cantor, começaram a incentivar na sua recuperação e luta contra o vício em anfetaminas e barbitúricos, a partir da recuperação, conseguiu achar no amor e na música uma forma de se auto-reconstruir.
"Está bom pessoal, vou mostrar que faço música boa pra vocês"
E sua carreira conseguiu um grande novo salto na sua vida através de um disco gravado direto da prisão - sim, direto de uma prisão, tendo como plateia um monte de gente que está cumprindo sua pena pelos erros e crimes cometidos durante suas vidas! Mas, quem não compreendeu a ideia vindo da cabeça do Homem de Preto foi o pessoal da gravadora Columbia Records, da qual fazia parte há 10 anos, pelo fato de não saber o que passava na cabeça do homem da voz de trovão do Arkansas. Parafraseando o poeta Fernando pessoa, e não sabendo que era impossível, foi lá e fez: no dia 13 de janeiro de 1968, o cantor e compositor, acompanhado de sua banda que contava com Marshall Grant no baixo, Luther Perkins na guitarra e seu irmão, o velho conhecido Carl Perkins nas guitarras e vocais, W.S. Holland na bateria, e também os Statler Brothers nos vocais, além de contar com sua amada June Carter o acompanhando e dando uma canja, tudo isso com os registros trazendo sons dos elementos cumprindo suas penas ali se emocionando e rindo, captados por Bob Johnston - o produtor. O registro acabou mudando para sempre a história da música, deixando de levar seu som apenas para casas de espetáculos, mas para casas penitenciárias cheias de detentos, e é deste registro que vamos falar: Johnny Cash at Folsom Prison, lançado meses depois, ajudando ele a se manter em alta no público apreciador de country, trazendo na capa um icônico clique do Man in Black com um olhar sério e até suspeito, fotografado por Jim Marshall, um dos especialistas em retratar artistas de vários segmentos em momentos diversos. O álbum já abre com um anúncio "Hello, I'm Johnny Cash" que marcou para sempre suas entradas nos shows, e já dando a deixa para a canção Folsom Prison Blues, um tema inspirado após assistir um documentário, e que acabou se identificando com os detentos presentes no show; mais em diante, nós ainda temos a canção Dark as the Dungeon, escrito nos anos 1940 por Merle Travis e resgatado por Cash para trazer a história das condições de trabalho dos mineradores americanos, ganha uma versão bem emocionante que traz ovação no meio da cantoria, sinal de que estão gostando; na sequência, há um momento divertido até começar a canção I Still Miss Someone, gravado ainda há 10 anos quando estreou na Columbia, mantém os tons e o primor da versão original aqui; a seguir, dois temas que imortalizaram este trabalho, a primeira faixa é Cocaine Blues, um velho tema dos anos 40 trazendo um pouco daquele estilo western, o conto de um homem que mata sua mulher por influência do whisky e da cocaína traz uma certa ligação com alguns dos presos, a outra faixa a seguir é 25 Minutes to Go, aonde nosso Homem de Preto conta os últimos minutos de um detento antes de ir para o corredor da morte e passar pelos derradeiros sofrimentos até a cadeira elétrica, traz uma narrativa bem cronológica e até cinematográfica nos seus versos ao ouvirmos; ao puxar sons da sua harmônica, já sabemos que é o sinal para começar logo a executarem Orange Blossom Special, que não decepciona a gente ao decorrer da escuta deste álbum; um dos tantos contos retratados em canções que aparecem aqui é The Long Black Veil, onde Cash narra a história de um sujeito que foi executado de forma falsa sob a acusação de assassinato, que recusou na noite anterior a oferecer um álibi, pois teve um caso com a mulher de seu melhor amigo - e ainda afirma que preferia levar seu segredo ao seu lado quando morrer, do que falar a verdade - com apenas voz e violão da forma mais profunda o arranjo deste tema.

"June, como que o pessoal da Columbia achou que esse
show não vingaria em um grande álbum ao vivo? Tolos!"
Já o lado B do disco abre com uma canção autoral, Send a Picture of Mother, uma narrativa sobre alguém que parte e o eu-lírico pede para mandar lembranças aos pais e que acaba dando um toque bem suave no repertório do show, e já não decepciona demais quem esperava pouca coisa; em seguida, um tema antigo de Harlan Howard é resgatado no álbum com menos de dois minutos de duração, intitulada The Wall, que o vozeirão do Arkansas havia gravado em 1965 para o álbum Orange Blossom Special, e serve como uma base das suas canções; mais outra canção da antiga que aparece no repertório também para dar um toque a mais é Dirty Old Egg-Suckin' Dog, no melhor momento voz-e-violão do tema que já havia sido gravado antes em Everybody Loves a Nut (1966) aqui ganha esse tom mais simples com risos e ovação dos detentos em quase toda a canção; um tema que ainda mostra todo o poder vocal de Cash é Flushed from the Bathroom of Your Heart, com a mesma pegada do restante, a euforia da plateia, com seus 2:40, as duas canções são de Jack Clement - compositor de Memphis conhecido por suas canções country muito gravadas por gente como o próprio Cash, Dolly Parton, Tom Jones, Carl Perkins, Ray Charles, Elvis Presley entre outros; na próxima faixa, temos um dueto que acaba sendo o momento mais marcante deste registro: Johnny divide os vocais com sua amada June Carter, um country com ritmo e guitarras chamado Jackson, do próprio Man in Black, que acaba sendo outro ponto importante deste registro histórico da música em todo sobre uma pessoa que acaba querendo voltar para a capital do Mississippi; em seguida, os dois terminam seu momento duo de casal em Give My Love to Rose, uma canção de primor um tanto doce, pela levada um pouco mais soft inclusive, acaba sendo uma das canções que também não faz feio no repertório; no álbum ainda temos canções que mantêm a essência country com seus personagens no melhor estilo outlaw, como em I Got Stripes, de um sujeito que acaba sendo preso e nota que ele têm listras em seus ombros e correntes nos pés, percebam que no meio da música ele fala sobre um dos microfones está com o parafuso solto e diz para esperarem, porque ele iria consertar e fecha com um "alright" dando a deixa para o tema a seguir; em seguida, ele segue desfilando temas com suas histórias de um lado mais profundo e com versos cinematográficos - como no caso de Green, Green Grass of Home e a narrativa de alguém que volta para sua cidade natal e nota que quase nada mudou, até a grama verde da casa, com um coral primoroso dando apoio ao cantor com seus então 35 anos à época vivendo seu momento; antes que o show acabe - para nossa lástima - o cantor anuncia que a música seguinte foi escrita por um detento da prisão de Folsom chamado Glen Shirley (sortudo esse viu!), intitulada Greystone Chapel, carregada de muita religiosidade e falando de uma capela cinza que há na prisão, uma casa de culto dentro do antro do pecado, um ótimo destaque, e ainda fala "You wouldn't think that God had a place here at Folsom" (você nunca achou que Deus tivesse um lugar aqui em Folsom) provando a fé dentro do coração de alguns prisioneiros, fechando com chave de ouro este grande trabalho ao vivo, seguido de um instrumental empolgante que anuncia fim do show com a ovação dos detentos com um agradecimento pelo cantor e seu show na casa de detenção.
O disco entrou mesmo para a história, transformando-se em um dos melhores registros ao vivo de sempre, assim como seu sucessor na prisão de San Quentin, também situada na Califórnia e lançada no final de 1969. Cash seguiu sua trajetória brilhante com álbuns maravilhosos até nos deixar em 2003 e sempre mantendo a essência que perdurou através dos tempos, vindo a trabalhar nos últimos anos ao lado do produtor Rick Rubin, um dos últimos grandes parceiros na música. Estando em diversas listas importantes sobre música, o álbum conseguiu conquistar o 88° lugar na famosa e sempre citada lista da Rolling Stone dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, e também comparecendo na lista dos 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, organizada pelo jornalista Robert Dimery, e em qualquer outra lista que você achar por aí, que mostre o grande legado do eterno voz de trovão do Arkansas.
Set do disco:
1 - Folsom Prison Blues (Johnny Cash)
2 - Dark as the Dungeon (Merle Travis)
3 - I Still Miss Someone (Johnny Cash/Roy Cash Jr.)
4 - Cocaine Blues (T.J. Arnall)
5 - 25 Minutes to Go (Shel Silverstein)
6 - Orange Blossom Special (Ervin T. Rouse)
7 - The Long Black Veil (Marijohn Will/Danny Dill)
8 - Send a Picture of Mother (Johnny Cash)
9 - The Wall (Harlan Howard)
10 - Dirty Old Egg-Suckin' Dog (Jack Clement)
11 - Flushed from the Bathroom of Your Heart (Jack Clement)
12 - Jackson (Jerry Leiber/Billy Edd Wheeler)
13 - Give My Love to Rose (Johnny Cash)
14 - I Got Stripes (Johnny Cash/Charlie Williams)
15 - Green, Green Grass of Home (Curly Putman)
16 - Greystone Chapel (Glen Shirley)

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Um disco indispensável: Trout Mask Replica - Captain Beefheart & His Magic Band (Straight Records, 1969)

Não, não é bobagem achar este disco do Capitão Coração-de-Bife (ou Touro, sei lá como você queira) um negócio cabeça, difícil de compreender ou que não seja lá grande coisa para quem manja mesmo de música - o que soa até como um sarcasmo, cheio de sinceridade. O conjunto de sua obra é uma viagem por si, chame-o de qualquer coisa, porque você não vai ver dentro deste disco uma obra de arte, o que realmente é de verdade. No final dos anos 1960, Don Van Vliet havia deixado um selo de nome no cenário como a A&M após recusarem todas as músicas consideradas negativas pelos executivos e isso deixou ele mais afim de lançar seu material, que se tornou seu álbum de estreia Safe as Milk por um novo selo alternativo chamado Buddah, de um cara chamado Bob Krasnow, que viu o potencial do trabalho de Van Vliet e sua turma. Na safra do cenário musical, o grande Captain Beefheart era um nome da vanguarda americana, assim como nomes do tipo Velvet Underground - que gravavam num selo de jazz, a Verve - que tinham sido, o Love - uma banda de Arthur Lee que também aconteceu naquela década, a The West Coast Pop Art Experimental Band - pioneira nessas alucinações sonoras, os próprios Doors, e na América Latina também não seria diferente. Se na Argentina tivemos a expansão do rock em castelhano através de grupos como Los Gatos, Los Beatniks, Manal e Almendra, no nosso chão brasileiro nada iria ser diferente: com um conjunto de três jovens com roupas espalhafatosas e coloridas acompanhados por um sujeito mulato de barba tocando violão, enquanto esses já vinham com guitarra e baixo elétrico em punho para mudar a história da MPB, eletrificando-a de vez na 3ª edição do Festival da Música Popular Brasileira, e estes três jovens - vindos da Pompeia, eram os Mutantes acompanhando Gilberto Gil, compositor baiano aclamado, e que estava supostamente traindo o movimento conservador dentro da MPB através de Domingo no Parque, e nessa mesma edição, a consolidação da música popular brasileira elétrica teve a célebre presença de Caetano Veloso, que tinha o acompanhamento musical dos argentinos Beat Boys e fez de Alegria, Alegria - uma marcha-rancho psicodélica com tons de bossa - e a tropicália nascia ali, revolucionando na música latina em geral com seus experimentos e misturas de referências sonoras - da latinidade ao baião e da bossa ao rock agitadaço com tons ácidos que iriam fazer a cabeça de muita gente. Quase todos os movimentos e nomes ao redor do mundo tinham a mesma coisa em comum, seja em influência ou em uma inspiração - o músico estadunidense e produtor Frank Zappa, um dos maiores nomes do rock, pioneiro da cena alternativa e que faziam um som entre o blues, a avant-garde, o jazz e um pouco da escola de Karlheinz Stockhausen, uma das maiores referências para os experimentalismos sonoros daquela década. Mas, embora a gente tenha citado parte da revolução sonora que estava ocorrendo, e do cenário vanguardista, há muitos nomes, um tanto obscuros naqueles tempos, que ficaram sem muito destaque, não sendo o caso de Vliet e de Zappa, que se conheciam de muito tempo, e ele ainda começou a seguir trabalhando na desenvoltura de um álbum muito mais original e diferente do que já tinha sido feito. Ainda em 1968, que soa como uma continuação de 1967 com seus ideais revolucionários, o furor da música psicodélica, a liberdade sexual e os clamores de paz e mudanças políticas, o músico e sua Magic Band ainda lançaram Strictly Personal por um selo alternativo chamado Blue Thumb Records, uma outra empreitada fonográfica de Krasow - o mesmo dono da Buddah, com quem Van Vliet teve alguns desentendimentos pois seus selos estavam mais ligados a outras vertentes, como um pop bubblegum (que equivale ao pop de hoje também), e se juntou ao velho amigo Zappa para trabalharem em seu próximo disco.
Bom, e o que sobrou das sessões que estavam sendo realizadas quando Van Vliet e sua trupe maluca estavam fazendo em 1967, logo em meio também a Strictly Personal, o disco que a banda lançou pelo outro selo de Krasnow, e tudo mais? Bom, o que havia sobrado daquelas gravações e tudo virou um álbum mais adiante, chamado Mirror Man, e também ganha um bom destaque em toda a sua discografia. Já por volta de agosto de 1968, quando já havia passado toda aquela situação, Befheart mais John French (Drumbo) na bateria e percussão, Jeff Cotton (Antennae Jimmy Semens) nas guitarras e vocais), Bill Harkleroad (Zoot Horn Rollo) tocando guitarra e flauta, Mark Boston (Rockette Morton) no baixo e Victor Hayden (The Mascara Snake) no clarinete-baixo e também cantando, além do próprio Captain Beefheart cantando e tocando saxofones tenor e soprano, além da gaita escocesa e também o shehnai, uma espécie de oboé indiano e até mesmo trombeta, mais a presença do próprio Zappa, que abrira um selo discográfico chamado Straight Records, e também bancou a engenharia de som nas sessões feitas em agosto e 1968 até março de 1969, juntou algumas composições deste período, nasceu um álbum 100% brilhante e original, estamos falando de Trout Mask Replica - lançado em 16 de junho de 1969, se transformou em uma das grandes portas na carreira do músico, uma vez que já havia se apresentado com a banda no MIDEM - o evento que promove as novidades do mercado fonográfico em Cannes (França), bem antes, sendo um artista totalmente diferente dos tradicionais que cantavam baladas mornas e temas comerciais. Eles eram o que podemos considerar o vômito naquele MIDEM em 1968, e eles mostraram que seguiam na maré vanguardista experimental com esse álbum duplo que repercutiu muito naquele 69, em meio ao caos que o mundo ainda vivia sociopoliticamente, mas que teve sua vanglória maior com o festival de Woodstock: o grande apogeu da era hippie com seu emblema sex, drugs and rock 'n' roll em 3 noites que marcaram pra sempre a história da música tendo shows de Jimi Hendrix, The Who, Sly & The Family Stone, Santana, Janis Joplin, Grateful Dead entre outros nomes para uma multidão que não sentia o fim dos tempos dourados da psicodelia.  Embora os hippies estivessem em alta, os Beatles e os Rolling Stones tiveram momentos complicados naquele ano: os primeiros tiveram crises durante as filmagens de um projeto chamado Get Back, e que depois virou o disco/filme Let it Be, e que resolveram parte das pendengas ao gravarem Abbey Road, mas a ferida era maior e prestes a ser exposta, por causa da indicação de Allen Klein como o nome certo para cuidar dos negócios da Apple, enquanto Paul McCartney preferia seu sogro e seu cunhado tomando conta - o que infelizmente não aconteceu, e aí veio a acontecer o fim da maior banda de sempre aos poucos. Já o quinteto que surgiu como "simples branquelos intérpretes de R&B" tiveram que se virar e se cuidar com as páginas policiais, e mesmo com Brian Jones fora do time - pois falecera em 3 de julho de forma suspeita na piscina de sua casa - agora com um novo guitarrista chamado Mick Taylor, o grupo ainda tinha feito o álbum Let it Bleed e seguido com uma série de shows e o pavoroso festival de Altamont, na qual os Hell's Angels ficaram no papel de segurança e a confusão rolou solta, sendo um dos maiores prejuízos na história da banda e do rock. O barato da vez mesmo era o movimento black, que traziam diversos nomes como Aretha Franklin, Marvin Gaye, Isaac Hayes, Diana Ross & The Supremes, James Brown usavam e abusavam da influência de elementos modernos e incrementavam em seus sons posteriores. Só na cena "diferentona" é que havia os malucos, os gênios incompreendidos, os cabeções é que estavam pegando o embalo do final da década, querendo confundir cabeças, ouvidos, corações e mentes, como foi o caso de Captain Beefheart com sua magnus opum que conseguiu ir mais além do que 1969 apenas.
Para dar uma breve explicação sobre este estranho, porém maravilhoso álbum, que é o próprio Trout Mask Replica, precisamos entender o conceito dele, ele traz várias visões de mundo, e também retrata a complexidade e a dificuldade que o ser humano busca para viver a vida, os significados disto tudo. Mas também pode ser um belo convite para você, caro leitor/ouvinte para um passeio pela pitoresca diversão dentro deste surrealismo sonoro que é este álbum. E o disco abre com o tema Frownland, que traz logo de cara um eu-lírico que demonstra ser um pouco niilista e também deseja viver mais a sua própria vida, bem distante da melancolia, há várias descrições em meio a este tema que já nos orienta nessa viagem sonora; na sequência, a barulheira esquisita continua como nunca por meio de The Dust Blows Forward N' The Dust Blows Back, onde só se ouve a voz de Van Vliet evocando à capella imagens de uma paisagem natural feia simbolizada com pobreza, introduzindo até a Grande Depressão nesta e em outras faixas do disco; em seguida, o surrealismo sonoro vai conquistando peso maior através de Dachau Blues, que acaba sendo um tema bem mais real, sério e discutido, coisa rara até aí: as mortes na Segunda Guerra Mundial, e pinta musicalmente as atrocidades da guerra, além de avisar que irá deixar enlouquecer líderes famintos de guerra que provocaram esta II Guerra, e acrescentando aqui, o título traz uma referência ao campo de concentração nazista em Dachau, a cinco quilômetros de Munique, o arranjo traz uma mistura perfeita entre o rock alucinante e o jazz vanguardista com a voz raspante de Beefheart que se destaca e muito; existe dentro das canções um universo fantástico e repleto de personagens com histórias dentro deles, no disco temos a Ella Guru, que é descrita como uma mulher tão selvagem que tem contato com a natureza e única como a Terra, com uma pegada de jazz-rock experimental que funciona muito com a poesia da canção, de pegada totalmente protopunk pra deixar funcionando bem no tema; e para a próxima faixa, o negócio mesmo é mais instrumental, se ouve sopros duelando e solando como se fosse ensaiar um tema, Hair Pie: Bake 1 é quase uma peça sonora que aparenta um resultado impressionante pela cozinha formada dentro da banda, com o Captain tocando quase todos os sopros e uma vibe bem psicodélica que dá pro gasto realmente; e como se não bastasse, o repertório do disco conta com mais maluquices do que se imagina: estamos falando de Moonlight on Vermont, com um fuzz de guitarra extremamente gritante mais uma pegada rock desconstruidona, e traz referência na música a uma canção homônima já gravada por Billie Holiday, Ella Fitzgerald entre outros nomes; em seguida, o tema carrega uma sonoridade bem blueseira no sentido instrumental, e Pachuco Cadaver traz um pouco um ambiente de alguém vivido nos anos 50 e sobre seu carro, uma mulher que põe seu vestido de bolero e sai pra dançar, uma relação entre mulher e máquina que deu certo até; para a próxima música, curta como várias outras, temos aqui o desenrolar de uma história onde sociedades e culturas se formam sem um interesse em comum, mas por um ódio e um inimigo comum, como se confere em alguns dos versos de Bills Corpse, onde o Capitão decide falar também sobre a falta de vontade de poder aceitar novas ideias ou crenças, coisa que ele chega a censurar em certos momentos até; nos dois minutos a seguir de Sweet Sweet Bulbs, há uma boa dose do que conhecemos em suas músicas como surrealismo poético: raios solares queimando, um mar da negatividade, tudo isso combinando com o som ácido e delirante com a voz gritante de Beefheart nesse tema; o excesso de mistura poética surreal nas canções com personagens e ambientes que uma hora parecem expressar tristeza, soam mais presentes do que nunca em Neon Meate Dream of a Octafish, aonde ele pronuncia as canções no modo spoken word seguido de um instrumental com um órgão full nervoso pra encerrar; a décima-primeira faixa do disco acaba trazendo uma história que envolve um porco chinês, e a sonoridade tem qualidade lo-fi, como se fosse uma gravação demo em China Pig, um blues mais cru e semidesplugado em seus 4 minutos, aonde pede que não matem o animal em meio a tanta imploração; em seguida, contamos aqui com um dos melhores temas nesse disco, a viajante e porralocona My Human Gets Me Blues, uma versão alucinante para a levada rockabilly e trata de uma questão sobre identidade de gênero do personagem, a busca pela sua própria personalidade, e isso muito antes de ser debatido nos dias de hoje, olhem só isso; para fechar a primeira parte do disco, sem perder o pique, temos aqui Dali's Car, uma música mais instrumental, e a primeira feita para o disco, com a ajuda de John French transcrevendo suas melodias disjuntivas que ambientam em apenas 1:26 de duração, encerrando o primeiro volume do disco (vinil).
Com Zappa, seu amigo e parceiro de maluquices sonoras
Abrindo de antemão a segunda parte deste álbum, temos aqui a continuação de Hair Pie, só que desta vez é Bake 2, aquela faixa instrumental que carrega dentro de si uma peça sonora cheia de guitarras delirantes, e vai ganhando tons coloridos aqui até atingir o ápice final da sua loucura sonora que dá continuação; para a próxima faixa que vêm em diante, temos risos seguidos de um diálogo entre The Mascara Snake, o próprio Beefheart e também Frank Zappa, onde incluem um "fast and bulbous" (rápido e inchado - tradução livre) que dá a deixa para a música Pena, sendo que a música é "entoada" de forma falada por Antennae Jimmy Semens, uma viagem poética, com aquela dosagem ácida nos versos, e uma onda bem porraloquera na base sonora que nos surpreende de vez; na sequência, nós contamos com mais um tema onde Beefheart à capella demonstra poder sobre sua voz cantando Well, um conjunto de versos que soam melancólicos e delirantes ao mesmo tempo (é isso mesmo, produção?!) nos seus mais de dois minutos desta obra de arte que faz parte de um conjunto - logo este álbum; neste álbum contamos com distinções de temas, no caso de When Big Joan Sets Up, aqui é realmente contraste a Ella Guru, que é uma mulher atraente, enquanto a tal Big Joan não é totalmente atraente demais para Van Vliet - mas também não fica um certo ar duvidoso dos versos até e é a música mais longa do disco, 5 minutos e 18 segundos apenas; como a gente disse antes, num disco desses, tudo é possível: desde ruídos de comer até diálogos, que é o casso de Fallin' Ditch, um tema que chega a dar um tropeço, e em alguns versos, a se tratar até mesmo da morte - olhem só, pessoal; já para o próximo tema que vêm mais adiante, que não dá pro gasto, mas também prova uma Magic Band totalmente conectada musicalmente, Sugar N' Spikes, nos surpreende com cada palavra, mas também não deixa de agradar nossos ouvidos, claro; outro tema impressionante, pelo título, mas também pelo som, Ant Man Bee é uma visão ampla e clara sobre conflitos étnicos, como se os humanos e as formigas vivessem em guerra, e também sobre racismo e preconceito (leiam a letra e busquem esses significados através dos versos) e vê uma espécie de anseio por um relacionamento simbiótico e pacífico entre a abelha e a flor, algo bonito até, e prova a superioridade da abelha com sua gentileza enquanto homens e formigas sofrem com a guerra deles mesmo, o destaque também fica para a pegada de blues que ambienta nesse som e os solos de sax tenor e soprando de Van Vliet em mais um momento instrumental de peso aqui; para não seguirmos perdendo o rumo desse disco, nós ainda temos Orange Claw Hammer, novamente um tema mais voltado ao spoken word pela forma que que soa narrativa até em seus mais de 3:30 de duração, por sinal; quando menos esperar, vai encontrar pérolas e das boas aqui neste disco com bons momentos poético-sonoros, como no caso de Wild Life, onde o nosso capitão entoa a vontade de viver uma vida selvagem, bem longe da cidade, tendo o melhor contato com a natureza, morando em uma caverna entre ursos e ao lado de sua esposa, quase no estilo Christopher McCandless pelo que se dá para notar; e se pensa que o disco acaba por aqui, é porque você ainda não ouviu She's Too Much for My Mirror, um tema mais leve, com uma letra meio cabeça demais, mas que envolve um romance abusivo em um certo verso da canção, se for compreender bem; o disco segue a desfilar com muitos de seus personagens que rondam o imaginário poético do capitão, em Hobo Chang Ba é a história de um sujeito sem lenço, sem documento e que vive entre os trens e os barcos que ele muda, vala falar aqui também sobre o baixo chapado e nervoso de Rockette Morton ganha um destaque interessante aqui; o disco não teria tantos convidados de peso em todas as faixas, mas para essa que vêm a seguir, parece uma escalação de reforços para um time, como no caso de The Blimp (Mousetrapreplica), um tema onde brinca muito com as palavras e no reforço de músicos convidados, os membros dos Mothers - Bunk e seu irmão Buzz Gardner e Ian Underwood, mais Roy Estrada e Art Tripp juntamente de Zappa e de Antennae Jimmy Semens como cantor principal desta faixa com seus 2 minutos que lembram um pouco as maluquices do Zappa com os Mothers em seus discos na época; e para que o disco não fique deixando vários temas de agradarem total nossos ouvidos, o repertório ainda não deixa de contar com Steal Softly Tru Snow,  que não deixa de desfilar tons surrealistas em seus versos e ainda dá totalmente para o gasto; a gente ainda há de contar também com mais uma canção no estilo spoken word, porém com acompanhamento instrumental, Old Fart Party, que apesar de curta, tem uma poesia bem cabeça e um clima bem de psicodelia mesmo, sem deixar a essência morrer; o disco traz no seu encerramento um tema bem voltado ao passado, estamos nos referindo a Veteran's Day Poppy, uma canção que narra a história de um sujeito que perde o filho e baseado no Dia da Reclusão, uma data especial no Reino Unido,  basicamente é um pai que perdeu seu filho na I Guerra Mundial, seu sofrimento e tristeza são retratados de forma notáveis, botando ponto final em um dos discos mais viajantes que este Captain Beefheart teve a ousadia de fazer.
Resultado final após a primeira escuta é que você acaba se estranhando muito com aquele tipo de som que o cara faz, o excesso de barulheira e a gritaria do capitão são necessárias - mesmo até aqueles que não manjam muito de música saibam bem qual é a do cara, haja paciência pra aguentar tudo isso que se ouve. O disco abriu grandes portas na vida do Beefheart em sua trajetória musical, logo no final dos anos 60, após ter tido a presença de Zappa como produtor de seu disco, ele participou de Hot Rats, um dos melhores álbuns do guitarrista em toda sua trajetória, e depois veio a gravar outros materiais até se isolar do mundo nos anos 1980, quando escolheu o sossego em sua casa no deserto de Mojave - situado no sudoeste da Califórnia, e ali ficou mais dedicado às artes plásticas, paixão desenvolvida desde jovem. Faleceu em 17 de dezembro de 2010, aos 69 anos, recluso, vítima de uma esclerose múltipla, e mesmo antes de ter morrido, seu álbum Trout Mask Replica virou de cara uma grande referência na música alternativa e virado influência para nomes como os Talking Heads, Pere Ubu, Blondie, Devo, e até o Sonic Youth bebeu muita água desta fonte inclusive. Seu disco está em diversas lista como prova de sua influência e contribuição para o surgimento do rock alternativo, do pós-punk entre outros estilos, como na lista dos 200 Melhores Álbuns dos Anos 1960 feita pelo site Pitchfork, que o elegeu com o 54º lugar, e também a Rolling Stone, que deu ao disco a posição de 58º lugar em 2003 na célebre e digna lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, além de figurar nos 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer - trazendo ao público um clássico de fácil assimilação popular que vai seguir atravessando gerações eternamente.
Set do disco 1:
1 - Frownland (Don Van Vliet)
2 - The Dust Blows Forward N' The Dust Blows Back (Don Van Vliet)
3 - Dachau Blues (Don Van Vliet)
4 - Ella Guru (Don Van Vliet)
5 - Hair Pie: Bake 1 (Don Van Vliet)
6 - Moonlight on Vermont (Don Van Vliet)
7 - Pachuco Cadaver (Don Van Vliet)
8 - Bills Corpse (Don Van Vliet)
9 - Sweet Sweet Bulbs (Don Van Vliet)
10 - Neon Meate Dream of a Octafish (Don Van Vliet)
11 - China Pig (Don Van Vliet)
12 - My Human Gets Me Blues (Don Van Vliet)
13 - Dali Car (Don Van Vliet)
Set do disco 2:
14 - Hair Pie: Bake 2 (Don Van Vliet)
15 - Pena (Don Van Vliet)
16 - Well (Don Van Vliet)
17 - When Big Joan Sets Up (Don Van Vliet)
18 - Fallin' Ditch (Don Van Vliet)
19 - Sugar N' Spikes (Don Van Vliet)
20 - Ant Man Bee (Don Van Vliet)
21 - Orange Claw Hammer (Don Van Vliet)
22 - Wild Life (Don Van Vliet) 
23 - She's Too Much for My Mirror(Don Van Vliet)
24 - Hobo Chang Ba (Don Van Vliet)
25 - The Blimp (Mousetrapreplica) (Don Van Vliet)
26 - Steal Softly Tru Snow (Don Van Vliet)
27 - Old Fart Party (Don Van Vliet)
28 - Veteran's Day Poppy (Don Van Vliet)